domingo, 20 de novembro de 2011

A AURORA E O OCASO

Para a amiga Thelma Maria Azevedo


Foi em 2003, aos 24 anos, que eu comecei a apresentar um programa de televisão no extinto canal a cabo DTV, da RCA-Company. O nome era inusitado: “Jovens Escritores” e o objetivo, claro: botar no ar a “garotada” que despontava na poesia e na prosa do Estado. No entanto, procurando pauta para mais uma edição, deparamo-nos com uma notícia curiosa: uma “vovó”, então com mais de setenta anos, mexia na internet com a maior destreza e havia até construído um site! E melhor, um site com a biografia de vários poetas do Espírito Santo (o www.poetas.capixabas.nom.br)! Seu nome: Thelma Maria Azevedo. Sua idade, então, era de 72 anos. Como não conhecer alguém assim?

O que eu não sabia era que eu faria muito mais do que um entrevista com ela: faria uma amizade enorme, um laço que nos uniria em prol da mesma paixão: o amor pela poesia, pelos livros, pela Literatura! Fomos, a equipe e eu, na casa de Thelma, que nos esperava toda bonitinha que só, cabelinho branco cortado, maquiagem e um sorriso estampado no rosto. Ela já havia escrito seu primeiro livro, naquela altura, “Fragmentos de Memória” (2000), em que resgatava sua genealogia, mostrando o viés de grande pesquisadora que foi. Aliás, memória era o que não faltava, pois as paredes do apartamento eram recheadas de fotos dos parentes, de gerações em gerações.

A gravação não deu certo! Eu me lembro que fazia um calor infernal no dia e que a luz não funcionou direito, o que nos levou a marcar com Thelma Maria no estúdio. O resultado foi um encanto e o programa fez um grande sucesso, tanto que, posso dizer, sem pretensão alguma, mas com muita felicidade, que fui eu quem a lançou, definitivamente, no meio literário capixaba. Naquele tempo, eu, um garotão ainda, membro da Academia Jovem Espírito-Santense de Letras, queria despontar no raiar da aurora da minha carreira, tendo como pretensão a de me firmar como escritor; e ela, uma doce senhorinha, via na Literatura uma forma de encontrar um objetivo aos seus últimos anos.

Dona Thelma, como eu sempre respeitosa e carinhosamente a chamei, e eu, não tardamos a frequentar os mesmos círculos literários e isso foi nos aproximando de tal maneira que, um dia, numa homenagem a uma escritora da terra, disse-lhe que gostava dela como uma avó e ela, com o coração ainda maior que o meu, disse-me que me tinha como um filho. E não era muito difícil encontrar alguém que, ao me ver chegar sozinho a algum evento, perguntasse: “sua avó está onde?”. Eu amava! E todo esse carinho eu tentei escrever um pouco na orelha do segundo livro de Thelma, o “Uma poesia, algumas crônicas e tanta coisa que sempre escondi...” (2005), que rendeu outra entrevista – e mais um nó, atado bem forte, nos laços de nossa amizade.

O programa acabou, mas o carinho que sempre tivemos um pelo outro, não. Tanto que sempre nos frequentamos, eu indo a casa dela, pondo-lhe a par dos acontecimentos literários e vice-versa, quando tive de me afastar um pouco do meio, por motivos profissionais. Posso vê-la descendo as escadas do prédio, devagarzinho, as perninhas meio trôpegas, um sapatinho baixo no pé, dizendo “tem paciência, meu filho, porque velho é devagar, mesmo”. Sempre vou me lembrar do carinho com que ela e Aparecida, sua cuidadora durante longos 17 anos, dispensavam por mim, recebendo-me com um suco de uva de caixinha bem gelado, servido em dois copos, um, para a bebida, e outro, para as pedras de gelo. Ouvi falar até que esse suco já estava até no orçamento do supermercado, no fim do mês...

Em 2006, num festivo 14 de dezembro, ganhei um grande presente de aniversário: foi a entrada da escritora nos quadros da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras. Eu ainda me lembro de quando ela chegou a um dos auditórios da Assembleia Legislativa do Estado, depois de mim, dando-me um longo e forte abraço. Como eu fiz campanha para ela! Como quis que ela entrasse! Foi na cadeira número 29, cuja patronesse é a cronista Carmélia Maria de Souza. Depois do caso passado, eu ainda me lembro de ela ter me perguntado: “meu filho, será que eu ainda vou estar viva para ver você entrar na Academia Espírito-Santense de Letras”?

Foi no ano de 2008 que Dona Thelma lançou o seu “Dicionário dos Escritores e Escritoras do Espírito Santo”. Ela estava toda prosa porque seu nome saiu em coautoria com o do escritor e então presidente da Academia Espírito-Santense Francisco Aurélio Ribeiro. Fruto de sua competente pesquisa de anos no seu site, ela e Ribeiro conseguiram triar uns 300 ou 400 escritores, dos mais diferentes matizes, entre vivos e mortos. Ainda brinquei com ela, perguntado: “e eu, estou nesse dicionário?”, no que ela respondeu, com ternura: “e como você não poderia estar?” e me deu um exemplar, com a mais linda dedicatória que ela me escreveu: “Ao meu amigo Anaximandro, ‘neto do coração’, descobridor, incentivador, com o desejo de que compartilhe da alegria deste trabalho”.

A alegria virou um susto, nela e em todos. Foi o meu grave acidente, em 07 de setembro de 2009. Lembro-me que ela foi me visitar, com a nossa confreira e amiga Jô Drumond, em minha casa, quando já estava tudo bem. Ainda brincamos de que era ela que de vez em quando falava da morte e foi esta que quase me levou. Ela dizia, bem humorada, que tinha “problema de DNA” (“Data de Nascimento Avançada) e que Jesus vivia a chamando mas que ela se escorava nas paredes do apartamento, dizendo: “Só mais um pouquinho, Senhor, só mais um pouquinho...”

Tomei posse na cadeira 40 da Academia Espírito-Santense de Letras em 16 de setembro de 2010, no auditório da Aliança Francesa de Vitória. Era a realização de um sonho de adolescência, pois desde quando havia lançado meu primeiro livro, aos 15 anos, queria muito isso. E ela estava lá, participando, como sempre, desse sonho. Nem os lances da escada da Aliança foram suficientes para que ela desistisse de estar presente comigo, provando que a amizade, quando sincera, pode tudo, desde unir pessoas de gerações diferentes, até fazer galgar qualquer obstáculo.



Thelma Maria Azevedo começou a pressentir seu ocaso neste 2011. Por fim, recolhida, doente, queixava-se da saúde, do peso que os anos lhe punham nas costas, impedindo-lhe de participar das atividades literárias, do convívio com os escritores. Uma de suas últimas aparições públicas foi na festa de fim de ano das Academias, no prédio da escritora e amiga Sônia Lóra. Lembro-me que ela permaneceu sentadinha, o tempo todo. Lembro-me também que houve um sorteio e que ela não ganhou nada, a não ser uma flor que retirei de um dos buquês e lhe dei, para sua alegria. Depois, sua presença foi rareando, rareando, rareando...

Eu fui uma das últimas pessoas a vê-la. Acamada, mas feliz com a minha presença e ainda esperançosa de poder voltar a andar, para continuar sua militância em prol das letras. “Será que eu vou andar de novo, meu filho?”, ela perguntava e eu, por óbvio, dizia que sim. Nunca perdi as esperanças de que ela sairia daquele estado, tanto que comecei uma campanha para que os amigos escritores doassem fraldas geriátricas para ela, no que, felizmente, fui atendido, pela solidariedade do meio e pelo carinho com que todos tinham por aquela figura especial que foi Thelma Maria Azevedo.

Eu a vi pela última vez no quarto 506, do Hospital dos Servidores Públicos, no centro de Vitória/ES. Lembro-me que errei o horário de visita, chegando um minuto depois do fim, mas que tive minha entrada permitida por uma sensível recepcionista que, certamente, percebeu o carinho que sempre nutri por Thelma. Foi uma surpresa para a escritora, cujos olhos se encheram de ternura e as mãos, meio trêmulas, ainda conseguiam segurar as minhas. Conversamos por uma meia hora e ela ainda me perguntou “será que eu vou sair dessa, meu filho?” e eu, sempre com convicção, disse-lhe que sim, sem jamais perder as esperanças.

Dona Thelma saiu sim. Foi para casa, para um rápido período com a família. O grande e terno coração, porém, não aguentou e a fez voltar para o mesmo hospital. Dessa vez, sem escoras nem minutinhos a mais, Jesus a chamou definitivamente para perto de si, para que ela declamasse poesias para os anjos, junto dos escritores que sempre amou. Foi no dia 12 de novembro de 2011 que se deu o ocaso de Thelma, às 23h10min. Aos 81 anos. O corpo todo parou. E nós escritores também.

Thelma Maria Azevedo deixou quatro obras, sendo a última o “Dicionário dos Poetas Capixabas”, lançado em outubro de 2011, no Mercado Literário de São Sebastião, em Jucutuquara. Sua última tristeza foi não poder ir ao lançamento. Mandou a nossa confreira Ester, que muito bem a representou. Também deixou uma filha, um filho, um neto e uma bisneta. Além de um outro neto, seu “neto literário”, eu, que, doravante, tenho por missão jamais deixar morrer a memória (e o trabalho, sobretudo do site) dessa grande autora e pesquisadora. Essa é, aliás, a tal “imortalidade” pregada pelas Academias: o autor vai, a obra fica.

O derradeiro escrito de Thelma foi o texto “Minhas últimas considerações”, em que ela exprime o desejo de ser cremada e ter suas cinzas jogadas no mar de Vitória, cidade que a acolheu e que sempre amou, apesar de barriga-verde de nascimento. Sua alma vai para o céu, pelas mãos de Nossa Senhora, a quem sempre se apegou, enquanto o corpo vai sumindo, os átomos se misturando aos da paisagem, para que ela seja lembrada por todos em todos os lugares. Gostei assim. Um final poético, para quem amava tanto a poesia. Tanto que só eu tenho um mimo que mais ninguém tem: uma fita cassete que ela gravou para minha mãe, em 2008, declamando durante 60 minutos. Ela viva dizendo que não sabia escrever poesia (que bobagem!), mas que amava declamá-las – e começou com a nossa preferida, “Vestido de Chita”, do poeta do morro da Fonte Grande Chico dos Ossos, de cuja história pouco sabemos, mas que tão importante foi para ela e, agora, para mim.

E é com esses versos, que ofereci a ela, no dia do seu ocaso, que quero terminar esta singela homenagem a uma mulher simples, mãe, servidora pública, mas que com humildade galgou o panteão das Academias de Letras e que, certamente, ainda será reconhecida como grande autora, grande pesquisadora mas, principalmente, como alguém que amou o Espírito Santo!



“Nada sei de simitria

Faço versos por brinquedo

Mas trago rima no crânio

Que nem foia de arvoredo

Quando tá carregadinho

Que inté a mata faz medo

Adoro este meu sertão

Minha paioça caída

Minha viola sentida

Minhas unha carcomida

De tanto roçá nas corda

As minha mágoa sentida

Vejo o sol quando ele acorda

Vejo quando vai drumi

Ouço o pio do sanhaço

O canto da juriti

Vejo vancê caboquinha

Eu nunca esqueci de ti!

Aos dispois, espero a lua

Que vem com todo esprendô

Iluminando a paioça

O nosso ninho de amô

Que fiz com tanto carinho

Que vancê foi e nunca mais vortô

Inté hoje ainda de lembro

Do dia de sua partida

Em que vancê, minha frô

Tava de chita vestida

Nos óio tu tinha água

Hum! Era lágrima fingida

Vancê tá fazendo farta

Nas festa vai noite arta

Porém não tem esprendô

Porque no jardim frorido

Tá fartando uma rosa

Que é vancê, meu amô!

Farta também um negócio invisivi

Quanque troço que não sei expricá

Acho que é sodade

Que o meu coração invade

E não me deixa cantá

Abandona os astromóvi

Os bonde, os bicho que move

Isso serve pra matá

Vem andar no meu jerico

Mió ser pobre que rico

Deixa a farsa capitá

Vorta, vorta caboquinha

Quero ver essa boquinha

Bem pertinho de mim cantá

Antão minha viola geme

E não há cantadô que não tema

As minha rima sartá

Mas se vancê não vier nunca

Iscuita bem, óia, asunta

Mais um pouco de atenção

Pode dizê pra cidade

Que vancê só pru mardade

Matô pru pervercidade

Um cantadô do sertão

Que vive te esperando

Chorando, sempre chorando

Improrando, improrando”



Anaximandro Amorim, escritor, membro da Academia Espírito-Santense de Letras e “neto literário” de Thelma Maria Azevedo (1930 – 2011).

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